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Autor Irene Maluf

Irene Maluf porIrene Maluf

Comportamento desmotivador

Críticas e comparações, não indicam novos caminhos, não ajudam a melhorar a performance e nem tornam as crianças e jovens mais fortes e determinados para enfrentar e superar as próprias frustrações.

Comparar é de modo geral, relacionar sejam coisas animadas ou inanimadas, concretas ou abstratas, da mesma natureza ou que apresentem similaridades, para conferir as semelhanças ou diferenças que entre elas existem.

Constitui uma das operações mentais mais importantes, que nos permite
desenvolver a aprendizagem e adquirir conhecimentos e comportamentos cada vez mais complexos, fazer escolhas inteligentes e instrumentaliza-nos a sermos capazes de optar por aquilo que nos favorece.

Assim, é desejável que se aprenda a comparar e que se ensine às crianças a
usar essa ferramenta mental que pode ser um guia seguro em diversas
situações de desafiadoras ao longo do desenvolvimento: quem não compara, não classifica e quem não classifica, não analisa, não sintetiza, não compreende, não transfere saberes e competências a novas situações.
Mas nem sempre a comparação é de ordem objetiva, principalmente se
falamos sobre relações humanas, em que a subjetividade é um campo comprometido por experiências passadas e pelo viés da personalidade de cada um.

Nas relações humanas, quando a comparação é realizada sob emoções
descontroladas, acaba por servir de estopim para o surgimento de muitos
percalços no desenvolvimento de valiosas habilidades latentes, que terminam por se perder. A comparação nesse caso torna-se, uma crítica não construtiva e fonte de sofrimento emocional que se desdobra em baixa autoestima e problemas comportamentais em adultos e principalmente nas crianças.

O Ser Humano é de natureza física, mental emocional intricadas, possui
características individuais, que constituem seu diferencial no mundo e
distinguem do outro sem que perca, entretanto, a humanidade que o une aos semelhantes, como espécie, esteja em qual cultura estiver.

Pode-se dizer que é dessa complexa interrelação entre as semelhanças e
diferenças das pessoas, adultas e crianças, que se embasa boa parte dos
desafios educacionais em todos os aspectos e níveis em que se pratica, desde o familiar, ao acadêmico, ao social, ao mundo profissional, entre outros que as pessoas vão estabelecendo durante o desenrolar da vida.

Um cuidado maior se deve ter quando as relações são familiares e se dão
entre pais, professores e crianças, pois é a partir dessa fase inicial que s
desenvolverão as potencialidades de cada um ou se criarão barreiras ao seu crescimento saudável.


É inevitável, nós adultos pensarmos em termos de comparação, até porque
muito do que aprendemos foi, e é construído mentalmente por comparação e exclusão. Quando se tratam de objetos ou situações quantificáveis, objetivas, em geral só obtemos vantagens usando dessa operação mental tão estudada pela psicologia e pela educação. Mas nos relacionamentos familiares, na educação infantil, a questão passa por importantes crivos como a motivação, a frustração, as expectativas e o potencial de cada um.

A frustração por exemplo, que advém da diferença entre nossa pretensão e o resultado obtido, deve ser compreendida pelo adulto sob um olhar pessoal e não na relação com o outro, principalmente se tratando de crianças que são seres em desenvolvimento e para quem críticas familiares são parâmetros poderosos. Uma derrota inesperada, notas baixas, uma repetência já anunciada, uma decepção que seja mal trabalhada pela família, pode implementar uma imagem negativa que a criança projetará de si mesma, de sua capacidade pessoal para o desempenho escolar por exemplo.


O papel que os adultos exercem em relação aos filhos, não é de forma alguma o de aplaudir sempre, elogiar sem motivos, mas o cuidado deve ser
semelhante ao fazer críticas e comparações com outros, especialmente
quando as suas próprias aspirações pessoais não forem atingidas pelos filhos.


Não se pode projetar mentalmente e exigir na prática, que teremos em casa um campeão esportivo ou o aluno com as melhores notas da classe e cobrar isso de nossos filhos. Devemos os incentivar a alcançar o seu melhor, através do estimulo ambiental, da oportunização de experiências valiosas, da motivação, da atenção diária, do apoio material e emocional e depois receber com tranquilidade o resultado de seu esforço, sem elogios vazios, sem frustra-la ou magoa-la, através de comparações com nossos padrões pessoais ou com a performance de outras crianças. Devemos ter em mente que comparações negativas causam mágoas, ressentimentos, marcas importantes e indeléveis especialmente quando são oriundas da opinião das pessoas que mais amam e querem agradar nesse mundo: seus pais.


A própria desmotivação escolar, muitas vezes se origina nas comparações
entre irmãos ou mesmo coleguinhas, feitas de modo pouco adequado pelos
adultos. É necessário haver um referencial positivo sim, mas guardado o
respeito pelo potencial particular e fatores ligados a individualidade e história de vida de cada um, sob o risco de gerar um sentimento de inadequação pessoal altamente impactante em novas tentativas de acerto.


A crítica, que é produto da comparação mal dirigida, leva a um movimento de afastamento entre pais e filhos: enquanto os primeiros, decepcionados e
frustrados nos seus desejos pessoais se lastimam, os segundos sofrem
duplamente a derrota, por sim mesmos e pelos seus familiares que frustraram, gerando culpa, medo, desânimo.

A experiência mostra que adultos frustrados, que desejam alcançar através dos filhos seus próprios sonhos perdidos, criam uma cadeia infinita de fracassados.

Mas também nos ensina que adultos equilibrados fazem críticas positivas e
comparações motivadoras aos filhos, estimulam e apoiam as crianças a se
empenharem sempre e apontam para a importância de serem bem-sucedidas na medida de suas potencialidades, no que particularmente desejam e tem habilidades pessoais.

Irene Maluf porIrene Maluf

Papel ou Tela

A cena é comum: bebês, ainda de fraldas, com um celular ou tablet em mãos, passam agilmente os dedinhos nas telas, enquanto seus olhos brilham de alegria, fixos nas imagens que se sucedem. Depois, assistem desenhos, posteriormente curtem joguinhos e anos depois, começam a digitar as primeiras letrinhas nesses mesmos teclados, até porque algumas escolas estimulam e muitos pais aprovam incontinente.

Hoje, para muitas crianças, a tela é apresentada antes do papel. Um lugar onde o dedo faz (aparentemente) mais que o lápis e o prazer encontrado em esforço à frente de um eletrônico, pode ser (e geralmente é) muito maior do que diante de um livro, um caderno, uma lousa. Não raro, crianças pequenas passam os dedos sobre revistas impressas esperando que as imagens mudem. É uma forma de descobrir o mundo, que quando são é única, é enriquecedora.


A própria internet, quando bem utilizada, é uma janela aberta para o conhecimento, e a educação pode tirar muito proveito desse fato, desde
que treine as crianças para a filtrarem informações, sintetizá-las, refletir
sobre elas antes de as utilizar. Temos assistido grandes projetos pedagógicos serem desenvolvidos por alunos de locais remotos e professores com poucos recursos materiais podem se cercar de riquezas virtuais inimagináveis por meio da internet. Quantas novidades e cursos estão ali a um “clic”!


Surgiu há algum tempo, entre alguns educadores, a ideia de trazer às escolas, mesmos às infantis, o uso de computadores e tablets de uma forma a substituírem o papel inclusive na hora da alfabetização. Isso gerou uma infinidade de dúvidas entre profissionais e especialistas, pois embora se reconheça a importância da contribuição que a tecnologia digital nos trouxe enquanto educadores, psicopedagogos e afins, também sabemos que todo exagero costuma trazer mais prejuízos do que benefícios a longo prazo. A solução é buscar nos estudos e pesquisas sérias, algumas respostas que norteiem a aplicação desses recursos de forma a otimizar a aprendizagem de todas as crianças, com e sem problemas de aprendizagem, na escola e nas clínicas.


A luz de vários trabalhos, como citaremos alguns, percebemos que a escrita à mão, aquela com que a maioria quase total dos humanos hoje vivos, se alfabetizou e para a qual nosso sistema nervoso se adaptou ao longo dos séculos, pode não ser a única possível, mas ao ver de muitos esquisadores de renome internacional parece ser, o melhor meio de alfabetização.


Ninguém aqui está falando de caligrafia, letra desenhada: falam de escrita à mão. E não estão de forma alguma desprezando a tecnologia digital, os tablets, computadores, celulares, apenas lhes dando o lugar de riquíssimos recursos pedagógicos, muito úteis se bem utilizados.


Um exemplo importante dessa conclusão é o estudo da neurocientista Karin James, da Universidade de Bloomington nos Estados Unidos, sobre a relação da escrita à mão para o desenvolvimento do cérebro infantil. Ela separou em dois um grande grupo de crianças não alfabetizadas, mas já capazes de identificar letras sem formar sílabas. O primeiro subgrupo foi treinado para copiar as letras à mão e o segundo para copiar no computador.

Entre outros achados, através de ressonâncias magnéticas realizadas, se concluiu que o cérebro responde de forma diferente nos dois tipos de aprendizagem e que as crianças do grupo que escrevem apenas à mão mostraram padrões de ativação cerebral muito similares aos das pessoas já alfabetizadas.


Além disso, os resultados desse estudo indicam que “escrever prepara um sistema que facilitou a leitura quando as crianças começaram a passar por esse processo” segundo a Dra. James. Quanto a habilidades motoras finas aprimoradas ao escreverem à mão o seu desenvolvimento se mostrou benéfico em várias áreas cognitivas.


Outros pesquisadores, como Anne Mangen da Universidade de Stavanger na Noruega, comprovaram que escrever à mão fortalece o processo de aprendizagem, já que as ações motoras fornecem um feedback importante ao cérebro. Além disso, o tipo de esforço para escrever corretamente em uma folha de papel é expressivamente diferente e mais complexo do que o de digitar. Inclusive, existe uma memória motora na região sensório motora do cérebro, criada quando escrevemos, o que é importante no processo de reconhecimento visual durante a leitura. “Pelo fato de a escrita à mão demorar mais que digitar em um teclado, o aspecto temporal também pode influenciar no processo de aprendizagem”, acrescenta a Dra. Anne.


Não podemos esquecer em nossas reflexões, que um aspecto fundamental é que o cérebro humano se desenvolve a partir das trocas com o meio. As crianças aprendem experimentando, tocando, sentindo, vivenciando. Estar com outras crianças, brincar, falar, manipular, sentir, jogar, faz parte do desenvolvimento sadio. Nosso cérebro passa naturalmente por etapas de neurodesenvolvimento aonde as diferentes áreas se desenvolvem em tempos diversos, onde períodos sensíveis e críticos se sucedem e se bem trabalhados e estimulados criam indivíduos cognitivamente muito mais aptos à aprendizagem.


Entretanto, nada sugere que hiperestimulação ou exageros sejam necessários para atingir esse fim, com exceção do caso de crianças com
perdas neurológicas, transtornos de aprendizagem, síndromes, etc. Essas precisam de especialistas e condutas pedagógicas específicas. Entretanto, a grande maioria precisa é de uma vida cheia de oportunidades próprias da idade, de brincadeiras, ar livre, convívio com outras crianças, boas escolas onde o papel, o lápis e o computador, assim como os jogos de tabuleiro, o celular, a massa de modelar, os pinceis, a tinta, a corda, o tablet, a bola e todo o resto , preencham sua mente e seu corpo de oportunidades benéficas e cuidadas de crescimento.

Irene Maluf porIrene Maluf

Uma boa noite

Todos precisam de uma boa noite de sono para poder estudar e trabalhar no dia seguinte. O sono é um dos principais processos fisiológicos para a vida. A sua expressão, alternada com a vigília, é circadiana e sofre influência de fatores endógenos, sociais e ambientais (Foster, 2005).

Mesmo sem informações científi cas detalhadas, esse tema relevante já foi muito tratado em diversos manuais de educação infantil de outras gerações e assunto de inúmeros artigos e discussões, até porque uma criança que não dorme bem sempre sinaliza durante o dia as consequências do descanso entrecortado e incompleto, que chama a atenção da família e professores. É uma questão fi siológica que envolve problemas comportamentais e, portanto, educacionais em boa parte dos casos.

Não é de hoje que se percebem os efeitos negativos (de curto e longo prazo) para a saúde física e mental infantil e que afetam diretamente a aprendizagem em qualquer idade: a atenção fica mais oscilante, a memória, menos operativa, a energia física, depauperada, o humor varia, os acidentes são mais constantes devido à falta do necessário controle de impulsos. Na idade escolar, vemos crianças sonolentas ou muito irritadiças na sala de aula, com péssimo relaciona mento social, difi culdade de acompanhar ou produzir adequadamente como seus pares.

Durante o sono, há um processo ativo de consolidação da memória e reelaboração das experiências vivenciadas, assim como a organização cerebral, que elimina o não necessário, consolida aprendizados e prepara o sistema nervoso para as novas aquisições.

Durante a primeira década de vida, as chamadas ondas lentas do sono são cerca de 40% mais presentes do que na adolescência e diminuem naturalmente ainda mais nos adultos, provando a importância de as famílias observarem com igual responsabilidade os horários do sono e a alimentação e higiene infantil.

Por outro lado, observam-se entre crianças com comportamentos como défi cit atencional (TDA) uma marcante relação com relatos familiares de difi culdades no dormir, na qualidade do sono.

As necessidades de sono são individuais, dependem de fatores diversos, se modificam durante a vida, mas, dentro de um padrão cientifi camente aceito como saudável, podemos dizer que: 1) Bebês até os 3 meses devem dormir de 16 a 18 horas ao dia; 2) De 1 a 2 anos devem dormir de 13 a 14 horas por dia; 3) De 3 a 5 anos, 11 a 13 horas diariamente são necessárias; 4) A partir dos 6 anos, de 10 a 11 horas; 5) Entre 12 e 18 anos, uma média de 9h30 ao dia; 6) Adultos: de 7 a 9 horas costumam ser sufi cientes (Ortiz, 2009). Sabe-se que boa parte do comportamento infantil durante o dia, na escola ou no convívio familiar, está ligada à qualidade do seu sono. Infelizmente, hoje estima-se que 30% das crianças com idade até 12 anos apresentam distúrbios do sono. Inclusive, cerca de 40% dos bebês não dormem bem, comprometendo seu desenvolvimento nessa fase tão importante, quando isso ocorre com complicações mais sérias.

Nos cinco primeiros anos de vida há mudanças na duração, na distribuição e no caráter do sono, e vários fatores podem afetar a criança: medicações, doenças sistêmicas, condições ambientais.

A insônia é a disfunção de sono mais relevante, conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Consiste em uma dificuldade de início ou manutenção do sono, despertar mais cedo que o desejado ou difi culdade em iniciar o adormecer sem intervenção dos pais ou cuidadores.

A rotina de sono pode ajudar muito a evitar problemas do sono e deve estabelecer-se precocemente e basear-se em medidas de higiene do sono e condutas educativas: 1) Estabelecer horário, rotinas e rituais consistentes para o sono; 2) Não barganhar a hora de dormir, nem ser condescendente de modo exagerado em fi nais de semana ou mesmo férias: o sono é um hábito biológico que precisa de rotina para se manter; 3) Evitar estimulação física, mental ou emocional perto da hora de dormir; 4) Ler uma história curta, falar carinhosamente com a criança; 5) Evitar oferecer alimentação durante a noite; 6) Evitar dormir com alguma fonte luminosa durante toda a noite; 7) Habituar a criança a adormecer sozinha, sem a presença física do cuidador, especialmente nessa época em que câmeras são de fácil instalação e podem tranquilizar os pais; 8) Não permitir que a criança durma na cama dos pais e sim preferencialmente no seu quarto; 9) Eletrônicos, telinhas de modo geral não devem ficar no quarto das crianças.

Interessante lembrar que estudos da década de 1990, da Comissão Na cional de Pesquisas em Distúrbios do Sono, nos Estados Unidos, já detectavam que os transtornos do sono eram pouco diagnosticados nas consultas pediátricas. E, infelizmente, quando a intervenção ocorre de maneira tardia, o problema pode persistir por anos, tornando-se um problema de difícil solução e múltiplas consequências. Por isso cabe ao pediatra reconhecer os transtornos e buscar o melhor tratamento para curá-los ou, ao menos, minimizá-los, e cabe aos pais a responsabilidade sobre esse aspecto tão importante quanto a alimentação, higiene e educação de seus filhos.

Artigo publicado na Revista Psique Edição 168.

Irene Maluf porIrene Maluf

Qualidade antes da quantidade: vivendo uma Pandemia

Estamos vivendo uma situação inusitada e dolorosa, a Pandemia pelo
COVID-19 e por precaução, impedidos de exercer boa parte de nossas
atividades usuais. Isolados em casa, passamos a exercer pelo computador
boa parte de nossas responsabilidades profissionais e a cuidar
pessoalmente da família.


Consequentemente, surgiram encargos extras, normalmente terceirizados
na nossa sociedade, como é a educação acadêmica de nossos filhos, os
serviços domésticos, além do nosso próprio home office. Isso sem falar
sobre a ansiedade com a higienização intensiva devido ao perigo do
contágio pelo novo corona vírus e do cuidado especial com os mais idosos
da família.


A inexistência de uma vacina e de medicação que nos proteja a curto
prazo dentro desse cenário global, acrescenta inquietação e medo a todos
nós.


As aulas escolares foram suspensas e os alunos ficaram sem sua rotina
usual, quando um período do dia era ocupado com a escola e o outro com
as aulas extras e as tarefas acadêmicas em casa. Há expectativas que a
situação não mude em menos de dois ou três meses e aí surgem as
dúvidas sobre como manter a aprendizagem escolar presente na vida de
nossos filhos.


É certo que não dá para colocar o cérebro infantil em férias nesta época
do ano, mas a situação de confinamento faz muitos pais exagerarem na
expectativa de manter o ritmo de estudos das crianças e adolescentes
como era antes. Muitas escolas se desdobram para sustentar aulas online
e quando isso é possível e acessível, especialmente no ensino médio e
superior, apesar das adaptações necessárias, o estudo segue praticamente
de acordo com o esperado.


Entretanto há casos em que, pela pouca idade ou mesmo imaturidade
infantil, os pais precisam assistir as aulas online com os filhos e/ou
recebem de a escola tarefas escolares para os alunos fazerem
diariamente. Consequentemente é preciso inserir a criança em uma nova
rotina e uma parte seguramente terá dificuldades em seguir essas novas regras. É uma reação natural e própria da infância, especialmente se a
criança já tiver dificuldades com o aprendizado escolar.

Seja em qual for a circunstância, uma reflexão se faz necessária: estamos
vivendo um momento inédito em nossas vidas e o acúmulo de tarefas e
preocupações dos adultos, pode fazer com que se tornem por demais
exigentes ou excessivamente negligentes com a criançada.


Pais não são professores e a ideia que fazer a lição de casa com os filhos
proporciona aos adultos de que os estão ensinando, agora é transformada
na prática. É muito mais complicado do que parece, requer mais tempo e
conhecimento especializado substituir o professor.


Uma coisa é ensinar e outra é apenas supervisionar diariamente as tarefas
da lição de casa. Uma não dispensa o ambiente e o conteúdo planejado, o
profissional especializado na escola, os recursos e estratégias apropriadas
para transmitir novos conhecimentos gradativamente e presencialmente
em grande parte. Outra requer orientar (quando não ajudar mesmo) e
incentivar a criança a fazer pesquisas na internet, ler livros, escrever,
responder questionários, estudar textos etc. Para a primeira é preciso ser
profissional da educação. Para a segunda, a atenção, o carinho familiar e
tempo são indispensáveis.


É importante lembrar que a educação não é mais como no tempo das
nossas avós, quando as cartilhas bastavam para os pais ensinarem seus
filhos, pois era com esses livros que os adultos tinham aprendido também.
Hoje, a grande maioria dos pais não tem como explicar de modo
atualizado a matemática, a gramática, as ciências.


A escola não substitui a família e vice versa. Cada qual tem sua
importância na educação e manter o respeito pelos limites de papeis,
responsabilidades, é muito importante. Assim quando voltarmos aos
nossos afazeres após Pandemia, à escola caberá resolver as questões de
reposição das aulas e de conteúdo acadêmico. À família cabe agora, algo
mais do que apenas exigir que as tarefas sejam cumpridas: fazer com que
o período seja rico em vivencias familiares, amorosas e cheias de
aprendizagens de vida diária, que aliás andavam mesmo um pouco
esquecidas.


Encontrar um meio termo em que pais e crianças fiquem harmonizados,
também é importante e não tem receita, mas tem orientações. Isso porque de repente, frente a tantos riscos com a saúde, o conteúdo
acadêmico perde um pouco o foco, mas a aprendizagem de vida se torna
mais prática e emergente: o frango que vai ser assado para o almoço veio
mesmo de onde? Vamos pesquisar como são criadas essas e outras aves
nas granjas? E como são plantados e colhidos o feijão, o café, como o
açúcar fica tão branco e fininho? Como chegam ao supermercado? Por
estradas de ferro e de rodagem que tem técnicas especiais para serem
construídas, não é? E como mesmo é que surgiu a internet? Há crianças
que nunca plantaram um feijão no copinho com algodão e outras que
nunca viram como um bolo é feito.


Um planejamento equilibrado com horários bem estipulados de revisão de
conteúdos escolares, aquisição gradativa de aprendizados novos, pode ser
admissível desde que outros horários sejam repletos de atividades
estimulantes, como brincadeiras, participação nas tarefas caseiras,
horários demarcados para TV e internet, jogos com os irmãos e os pais.


Muitas atividades escolares podem, em comum acordo com as escolas ,
serem ministradas de forma que a família não se sinta obrigada a
acompanhar as crianças nas tarefas , já que não vivemos um período de
férias : adultos continuam a fazer o próprio trabalho de casa, mais os
afazeres domésticos e os cuidados gerais com os próprios pais idosos.


Controlar e acompanhar as atividades escolares é importante (sim!) e por
isso é preciso que estas se harmonizem dentro do planejamento familiar e
não sejam um peso tão grande que obrigue pais a se transformarem em
professores e os professores a se desdobrarem em atividades que antes
não lhes competia , por horas diárias em que inclusive não trabalhavam
antes e que agora lhes tira a oportunidade de atenderem as próprias
famílias.


O aprendizado escolar, é importante sempre, mas não estávamos
preparados para transformar a escola presencial em online de uma hora
para outra. Essa passagem deverá ser pensada com muito cuidado daqui
para frente, pois se mostrou possível se bem adaptada. Mas neste
momento, parcimônia é o melhor remédio, para evitar estresse familiar,
brigas entre pais e filhos, que acabarão perdendo a oportunidade de
estarem juntos de uma forma construtiva. Novos hábitos podem ser
criados em família nesta quarentena, que vão ser lembrados para o resto de suas vidas e tornarão as crianças e jovens serem mais resilientes frente
as dificuldades inesperadas.

Como lidar com as crianças em casa durante a quarentena?


1-Explicar de modo simples, adequado à idade, o que é uma Pandemia, o
Covid-19 e o significado de quarentena para que entendam minimamente
a situação e se cuidem. A ignorância cria muitas fantasias, até bem piores
que a realidade;


2-Adultos estão mais tensos e preocupados que as crianças, mas estas
podem estar aflitas sem conseguir falar a respeito desta crise. Abrir o
diálogo, comentar as reportagens assistidas é muito importante para
manter a saúde mental de toda a família;


3-Sem amedrontar, esclarecer sobre o perigo da contaminação e as
consequências que a falta de higiene pode acarretar;


4-Manter diálogo sempre aberto para falar das formas de prevenção, de
higiene e dar exemplos de como se proteger e proteger a família;


5-Estabelecer um programa diário de tarefas caseiras: as crianças gostam
de se sentir uteis, importantes e aprender coisas novas que dificilmente
aprenderiam na escola;


6-Explicar que os avós e outros adultos idosos, devem ser lembrados e
visitados pela internet ou telefone todos os dias, como forma de cuidar da
saúde dele se lhes proporcionar alegria, mesmo na quarentena. Além
disso, tal comportamento vai reafirmar às crianças a importância delas
para toda a família, mesmo em uma época tão difícil.


7-O aprendizado escolar terá em muitos casos que esperar, pois pais não
são professores. Mas, estimular a leitura diária é importante sempre e em
todas as idades. Anotar os mantimentos em falta, preparar a lista de
afazeres diários fazer as contas dos gastos ajuda a entender a relação da
escola com a vida real.


8-Bons livros e filmes podem e devem ser vistos em família e discutidos:
os adultos podem perceber o nível de compreensão das suas crianças e
entender melhor ate mesmo as queixas dos professores nesse sentido;

9- Se seu filho tem problema de aprendizagem eis um momento para ele
mostrar um bom desempenho e ser elogiado ao fazer coisas práticas nas
quais pode se sair muito bem. Peça orientação ao Psicopedagogo e
mensure a possibilidade da criança continuar com alguns atendimentos
online.


10-Se a criança estiver desocupada, não a mande simplesmente estudar,
mas peça sua ajuda para uma tarefa que de modo indireto a obrigue a ler,
escrever, fazer contas. Verdade que o período não é de férias, mas poucos
pais conseguem fazer com que a criança estude em casa sem a rotina
escolar. Estudar não é castigo!


11 Crie em um período do dia, um momento para as brincadeiras e jogos
em família. Deixe correr a imaginação, se mostre disposto a aprender
coisas novas e participar da brincadeira também.


12- É uma excelente hora de mostrar que a internet é mais que
WhatsApp, Facebook, jogos eletrônicos…que tal desafios com perguntas
interessantes que devem ser respondidas ate o final do dia? Todos na
internet e nos livros para buscar respostas! E que tal visitas virtuais a
museus, em família?


Pense que a Epidemia vai terminar, vai deixar uma lembrança para toda a
vida dos pais e dos filhos. Vai deixar um aprendizado também. Que tal
fazer que a lembrança seja da união da família em meio a todas as
dificuldades e o aprendizado maior seja o valor da cooperação, do
respeito e da compreensão.