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Irene Maluf porIrene Maluf

Transtorno Bipolar na Infância

A infância é uma época estratégica da vida do ser humano. É quando se dá um grande desenvolvimento físico, psicológico e mental, concomitantemente ao aprendizado básico indispensável para todos os que se seguirão por toda vida.

A relevância da observação dos comportamentos e aquisições intelectuais da criança e do adolescente feita por pais e professores é imensa, mas não substitui uma avaliação médica e de especialistas em diferentes áreas, quando estes comportamentos fogem da freqüência e intensidade usuais.

Até alguns anos atrás, poucas eram as doenças mentais reconhecíveis na infância. Com o aumento das pesquisas e o incremento de estudos científicos, os diagnósticos de vários transtornos psiquiátricos em crianças e adolescentes tornaram-se possíveis e decorrentes dessa nova condição. Aparentemente, os casos se multiplicaram numericamente e se fizeram mais conhecidos pela população em geral.

Entre esses, o Transtorno do Déficit da Atenção, com ou sem hiperatividade (TDA/H) e o Transtorno do Humor Bipolar (THB) têm sido objeto de muitos estudos em vários países, pois ocasionam forte impacto sobre a vida escolar, pessoal, familiar e mais tarde profissional do paciente, especialmente quando não devidamente diagnosticados e tratados por equipes de profissionais especializados.

O TDA/H, hoje muito comentado em função da amplitude da divulgação na imprensa, é um exemplo. Conhecido dos médicos há várias décadas, com o advento das especializações, como por exemplo a psicopedagogia, passou a ser objeto de estudo multidisciplinar e os resultados dos tratamentos têm sido, em sua grande parte, de enorme valia, tanto para os pacientes, como para suas famílias e a sociedade.

Os prejuízos decorrentes da falta de diagnóstico e do acompanhamento médico e psicopedagógico vão do fracasso escolar à evasão, da baixa auto-estima à depressão, da rejeição do grupo ao isolamento, às drogas, à gravidez precoce, à promiscuidade sexual e marginalização, entre outras.

Infelizmente, a especulação por parte de alguns profissionais não credenciados para tal avaliação, ou ainda, diagnóstico feito por pessoas leigas, tem trazido mais problemas aos que já sofrem com esse transtorno. Generalizou-se, irresponsavelmente, por exemplo, chamar de TDA/H a toda e qualquer manifestação de inquietação, distração ou falta de limite que as crianças e jovens apresentem na escola ou em casa. Como conseqüência, casos em que o transtorno não existe de fato aparecem em toda parte, banalizando um problema sério e de grande repercussão sobre a vida dos pacientes reais e sua família. Estes falsos diagnósticos são geralmente feitos à base de “achismos” como o preenchimento de questionários ou testes sem qualquer base científica ou mesmo ao sabor das conveniências pessoais de alguns adultos, que pensam dela tirar proveito, seja para justificar uma educação deficiente em limites, normas e atenção à criança ou, ainda, a outros interesses particulares.

O Transtorno de Humor Bipolar em crianças é outro exemplo de doença psiquiátrica que exige seriedade no encaminhamento, pois, nessa faixa etária, a sua sintomatologia pode se apresentar de forma atípica.

Assim, ao invés da euforia seguida da depressão dos adultos, nas crianças surge a agressividade gratuita seguida de períodos de depressão. Nestas, o curso do Transtorno é também mais crônico do que episódico e sintomas mistos com depressão seguida de “tempestades afetivas”, são comuns. Além disso, a mudança é rápida e pode acontecer várias vezes dentro de um mesmo dia, como por exemplo: alterações bruscas de humor (de muito contente a muito irritado ou agressivo); notável troca dos seus padrões usuais de sono ou apetite; excesso de energia seguida de grande fadiga e falta de concentração. Esses são alguns sintomas que devem ser observados.

Os diagnósticos de transtornos da saúde mental são difíceis mesmo para os especialistas, pois é alta a prevalência de comorbidades, ou seja, o aparecimento de dois transtornos simultaneamente, o que exige conhecimento, experiência e observação minuciosa do médico e da equipe envolvida, como psicólogos e psicopedagogos.

É importante salientar ainda que estes transtornos afetam seriamente o desenvolvimento e o crescimento emocional dos pacientes, sendo associados a dificuldades escolares, comportamento de alto risco (como promiscuidade sexual e abuso de substâncias), dificuldades nas relações interpessoais, tentativas de suicídio, problemas legais, múltiplas hospitalizações,etc .

Os diagnósticos devem sempre ser realizados por médicos psiquiatras ou neurologistas em conjunto com psicopedagogos, que ao diagnosticarem e acompanharem a criança, se preocupam em dar também orientações à família e à escola.

Minimizar esses transtornos só piora suas conseqüências e prejudica o paciente. Somente especialistas podem afastar e esclarecer as dúvidas e não é exagero ser cuidadoso quando se trata da vida, saúde e futuro dos nossos filhos!

Irene Maluf porIrene Maluf

Autonomia: aprendizado complexo

Vivenciar as frustrações desde a fase inicial da existência é importante para o desenvolvimento. Crianças superprotegidas tornam-se jovens que entram na vida adulta fragilizadas para enfrentar os desafios.

Criar um filho bem-sucedido, seguro de si mesmo, um líder admirado por todos é o desejo de qualquer pai. Mas uma longa construção, que começa no berço, é necessária para se atingir esse objetivo e muitos entraves estão no caminho.


A proteção excessiva é um dos maiores empecilhos e nem sempre é necessária uma dose exagerada de mimos, elogios ou amparo desmensurado para colocar tudo a perder. Amor, atenção, cuidados na dose certa, acompanhados de normas, hábitos sadios e responsabilidade, são o mapa do tesouro em educação. Como conseguir encontrar essa medida para cada filho é o desafio.

O pensamento mais comum entre as famílias condiz com a premissa de que poupar as crianças de vivenciarem problemas desde cedo, evitar dissabores, decepções, vai lhes proporcionar uma infância muito boa, memorável e sem “traumas”, palavra essa usada da forma mais popular e errônea possível. Julga-se que dar aos pequenos a chance de passarem por uma fase inicial da existência sem frustrações antes da chegada da vida adulta, quando certamente os problemas e responsabilidades virão por si mesmos, lhes deixará, além das lembranças, uma base afetiva que fará com que se sintam mais felizes e seguros.

Infelizmente, ocorre o contrário: como atletas sem treinos as crianças superprotegidas tornam-se jovens que entram na vida adulta fragilizados, despreparados para enfrentar desafios, derrotas e vitórias com responsabilidade. Ou seja, acontece que esse modo de levar a educação comprovadamente não resulta nos desejos familiares tão bem-intencionados, mas deságua em um mar de frustrações, pessoas inseguras, imaturas, insatisfeitas, pois não são gradativamente preparadas para os embates da vida nem para a concorrência normal que há no mundo profissional, onde as pessoas mais resistentes ás perdas mais assertivas e motivadas quase sempre ocupam os postos de liderança.

Tudo que é “super” merece, ao menos em educação, um olhar crítico em relação principalmente às consequências futuras. Superproteção é desnecessária e contraindicada porque prejudica, debilita. Superproteger não é sinônimo de amar e cuidar: está mais para desvitalizar, desmotivar, infantilizar e incapacitar. As consequências ultrapassam a própria vítima e atingem toda a família.

Outro ponto importante é que alguns pais tendem a enaltecer desmesuradamente qualquer coisa que os filhos façam com mínimo esforço, assim como satisfazem todos os desejos infantis, dando-lhes uma falsa ideia de poder, inadequado para o crescimento mentalmente saudável da criança.

Muitos pais confundem inteligência e extroversão com capacidade de ser responsável pelos próprios atos. Mesmo inteligente e sagaz, a criança tem limites próprios de sua etapa de desenvolvimento. Crianças só se sentem seguras quando têm um adulto que as oriente e as motive, impulsione, ensine a tomar conta de si mesmas, a serem responsáveis, terem confiança nos seus atos e decisões.

Adultos são responsáveis pelos filhos até que esses sejam maiores de idade, e dizer o contrário não muda a realidade das coisas: a negligencia, tão grave quanto a superproteção, é punida por lei; então, deixar os filhos fazerem o que desejam poderia ser enquadrado dessa forma.

As crianças precisam sentir que há alguém no comando, que cuida e que sabe o que é melhor para elas, mesmo que isso represente a perda de algum privilegio momentâneo. Ao tomarem decisões como adultos, estão na verdade tornando-se pequenos tiranos, coisa que não tem nada de positivo, e, pior, sentindo-se infelizes, pois percebem que seus pais não têm tempo nem dão valor e atenção a eles.

Crianças devem, na verdade, gradativamente aprender a decidir, na medida em que se tornem amadurecidas e capazes de responder pelas consequências de seus atos. Isso pode e deve acontecer desde muito cedo, pois o desenvolvimento da verdadeira autonomia é um processo longo que depende de vivências e experiências de várias ordens, mas necessariamente envolve responsabilidade pelos atos.

Autonomia é um aprendizado complexo, um processo que exige maturidade neurológica, emocional, treino social e apoio familiar. Incentivar, supervisionar, parabenizar são importantes para essa aquisição, pois geram autoestima, segurança e motivação.

Ser autônomo depende da capacidade de prescindir da dependência excessiva dos pais, assim com o do seu incentivo permanente para que se responsabilizem por pequenas tarefas que aos poucos vão se ampliando em complexidade: guardar os brinquedos, amarrar os tênis, escovar os dentes sozinho, arrumar o material escolar, fazer as lições, cuidar de algumas tarefas de casa, gerenciar mesada, escolher entre as opções dadas por seus pais, e principalmente responder por suas (pequenas) decisões etc.

Tornar-se mais flexível, capaz de se relacionar, se comunicar com as outras pessoas e fazer escolhas, desenvolve a sua autoestima, fator decisivo para o sucesso pessoal e profissional.

Só o desenvolvimento gradativo da autonomia na infância permite a construção de uma personalidade saudável e possibilitará o fortalecimento da capacidade de resolver conflitos ao longo da vida e alcançar sucesso pessoal, social e profissional.

Irene Maluf porIrene Maluf

Agressividade Infantil

A agressividade é um sentimento natural e comportamentos agressivos são relativamente comuns entre as crianças de 1 a 3 anos, pois estas ainda não aprenderam a controlar seus sentimentos e reações, especialmente a frustração e a raiva que deles decorrem.

Entretanto, ninguém aprende sozinho a dominar sua agressividade: é preciso que os pais e os profissionais da educação que lidam com essa faixa etária estejam atentos, observando constantemente a maneira como os pequenos começam a se relacionar com coleguinhas e com os adultos.

E também, é claro, é importante que pais e professores se prepararem para interferir quando as mordidas, os arranhões e os tapas aparecerem no grupo.

Demonstrações de força física, entre crianças dessa faixa etária, são ações esperadas uma vez ou outra.

Entretanto, se essa conduta está presente no dia a dia, como única forma infantil de demonstrar seus sentimentos de desagrado, raiva, ciúmes, ansiedade e até para chamar a atenção, de modo persistente e difícil de ser controlada, temos que buscar caminhos para ajudar a criança, pois algo não está bem com o seu desenvolvimento.

Na medida em que o tempo passa, as consequências vão surgindo, tais como uma grande dificuldade de lidar de maneira adequada com as outras pessoas em todos os ambientes.

Sua socialização vai se tornando cada vez mais empobrecida, permeada de múltiplos problemas de relacionamento e, decorrente a isso, sua autoestima fica diminuída e frequentemente até sua escolaridade é prejudicada.

Algumas vezes, este comportamento é resultado de uma disciplina familiar excessivamente severa ou, ao contrário, muito negligente. Ainda, pode ser consequência da vivência diária da violência familiar.

O que fazer em casa e na escola para desde bem cedo ensinar os pequenos a demonstrar de uma forma menos violenta os seus sentimentos de desagrado?

Primeiro, quando o bebê começar a bater no rosto dos pais, lembrar-se de que isso pode parecer engraçado da primeira vez, mas que, por conta dessa atitude, toda criança vai entendê-la como de atenção e aprovação e, com isso, ela perseverará nesse hábito agressivo e desagradável.

Espera-se que o adulto, em vez de rir, diga “não” de forma firme (mas calma) e segure as suas mãozinhas, de modo que ela perceba o seu desagrado.

O ideal para modificar esse hábito é tentar conter a conduta agressiva antes de começar. As crianças agem dessa forma quando querem chamar a atenção e quando estão frustradas: portanto, já se tem um indício de quando poderá iniciar esse comportamento.

Se já souber falar, é importante explicar-lhe que tapas, mordidas e arranhões machucam as pessoas, que elas não gostam disso e vão se afastar dela.

Dizer: “Dói quando você me bate ou dói quando você me morde”. Se a criança persistir, mostrar seu desagrado, colocando-a no berço ou chão se já caminhar.

Evite deixar seu filho ou aluno machucar o amigo ou o irmão. No caso de isso acontecer, separe as crianças e atenda primeiro o que foi ofendido.

Isso mostra ao brigão que ele perde sua atenção quando age agressivamente.

Nunca revide no lugar da vítima e nem a estimule para que o faça, pois você estará passando a ideia de que a agressividade é permitida como revide, criando um círculo vicioso.

No lugar disso, quando a situação é repetitiva, eleja uma consequência negativa: não dar atenção por alguns minutos sempre ensina muito mais do que gritos ou palmadas.

Mas se apesar de seus esforços o comportamento agressivo persistir, é melhor procurar um especialista ou o recomendar aos pais se você for o(a) professor(a) da criança.

A experiência vem mostrando que, crianças pequenas que não são ensinadas desde cedo a conter seus ímpetos agressivos, tendem a continuar com esse comportamento ao longo da infância e da adolescência, o que as leva a ser rejeitadas pelos colegas de classe e a se juntar a grupos em que a violência é aceita como regra.

Isso vai gerar um problema de conduta antissocial de proporções e consequências negativas e muito graves.

Irene Maluf porIrene Maluf

Adoção: aprendizagem e humanidade

“Na verdade, todas as crianças precisam ser adotadas para se tornarem filhos, porque a filiação somente acontece através dos vínculos afetivos, ou seja, pela adoção. Assim sendo, todos os filhos precisam ser adotivos, mesmo os biológicos, ou não serão filhos de fato. Os pais que não adotam as suas crianças afetivamente, são apenas genitores”.

Suzana Schettini

 

Um importante movimento de tomada de consciência sobre antigos preconceitos e tabus, se estendeu no século XX, a uma das áreas mais sensíveis para as famílias que por algum motivo não podem gerar filhos: a adoção.

Antes de um ato de solidariedade e cumprimento de uma determinação social, uma exigência quase global de se criar uma prole, ter herdeiros e dar continuidade ao nome de família, a adoção passa pelo acolhimento afetivo e o desejo de se amar incondicionalmente uma criança, independentemente de sua carga genética, origem, vantagens imediatas ou desvantagens a curto e longo prazo que possa trazer à família que a recebe.

Idéias pré-concebidas de que necessariamente o adotado é uma criança de “segunda classe”, que “trará problemas” e “jamais será como um filho biológico”, caíram por terra frente às pesquisas cientificamente realizadas no exterior e no Brasil e às declarações de famílias adotantes e filhos adotados que ora se apresentam a público, sem qualquer resquício do antigo receio de se expor.

Recém nascidos trazem, além de uma herança biológica, as experiências percebidas desde o útero materno. Especialmente no caso de crianças abandonadas, é provável que tais vivências tenham sido mais desfavoráveis, menos agradáveis, pois as agressões decorrentes das prováveis tentativas de aborto, da rejeição antes mesmo do nascimento, do abandono e a negligencia, as privações, deixam marcas profundas.

Porém, se acolhidas por um pai e uma mãe afetuosos e bons cuidadores, que lhe ofereçam, além de teto e alimento, amor, respeito e educação, essas suas questões iniciais vão sendo diluídas e tornam-se pouco significativas no seu desenvolvimento global.

Prejuízos cognitivos, físicos e afetivos podem aparecer também entre os filhos gerados biologicamente já que ninguém está totalmente livre se esquivar de doenças familiares ou congênitas, de má formações inesperadas e de acidentes pré , peri e pós natais, de anomalias de toda ordem que podem surgir até mesmo em famílias totalmente sadias.

Um outro ponto importante é lembrarmos que o tempo pesa negativamente contra aquelas crianças que ficam por anos à espera de quem as venha adotar: não só porque as condições de vida e aprendizagem dentro de uma Instituição, por melhor que essa seja, não correspondem às necessidades reais de toda criança, mas também porque, por puro preconceito e ignorância, as pessoas que desejam um filho, geralmente o querem pequenino, de pele e olhos clarinhos. E isso em um país onde a população na sua grande maioria não tem essas características físicas e onde grande parte das crianças disponíveis para adoção legal já passou da idade das fraldas e por vezes em muitos anos!

A adoção de um filho, presta-se principalmente a fazer valer os direitos e as necessidades do adotado e não do adotante, da mesma forma que o filho biológico vem antes para ser cuidado do que para preencher um lugar social, ou ser uma realização de anseios pessoais paternos, familiares e até para ser herdeiro. Estamos no século XXI e o tempo em que os sucessores eram indispensáveis para garantir poder, recursos financeiros ou aceitação social, já se encontra apenas nos livros de História Geral!

Ter um filho, é muito mais que o gerar biologicamente: é o fazer nascer do amor, crescer entre os que o desejaram e amaram antes mesmo de ver seu rosto ou conhecer suas características físicas e independentemente de ter ou não ter uma particularidade qualquer.

Lembremos que a nossa semelhança com todos os nossos filhos pode e deve ser ressignificada antes na afetividade do que nos traços fisionômicos, nos comportamentos e valores (que só a boa educação perpetua) do que no reconhecimento familiar trazido pelo código genético. E, principalmente, deve ser cunhada na certeza de que antes da razão, é o amor, a emoção e a capacidade de se doar, de adotar, que nos torna de fato humanos.

 

 

Irene Maluf porIrene Maluf

Os filhos do divórcio

O número de casais que se separam atualmente  é sem dúvida muito expressivo e isso pode ser constatado também nas escolas, onde é comum  vermos crianças relatando que viajarão para a casa do pai nas férias, que vão à casa da mãe no próximo final de semana, que ganharão irmão quando a mãe se casar com o novo namorado pois este  trará seu filho para morar com eles, etc

Se há trinta ou quarenta anos atrás, era um fato constrangedor ser filho/filha de pais separados e de um segundo casamento quando ainda não havia divórcio ou mesmo, ser a segunda esposa em uma época em que as aparências  gritavam mais forte que o desejo e o direito de ser feliz, hoje  a maioria das pessoas adultas compreende e apóia  a nova configuração familiar, desde que esta mantenha valores éticos e morais na sua conduta e na educação dos filhos. A situação das novas famílias, criadas após a regulamentação do divórcio e os novos casamentos, nos trouxe uma revisão de conceito de família e em geral uma aceitação mais humana e menos crítica das novas opções de vida que as pessoas escolhem para si e para seus filhos.

Entretanto, nem por isso, a separação do casal passou a  ser um momento menos doloroso para eles próprios e seus filhos não deixaram de sentir as mudanças que trazem inevitavelmente o morar sem um dos pais. Talvez mais acostumados a ver seus coleguinhas em idêntica situação, as crianças aceitem atualmente com mais naturalidade as suas novas condições de vida, na certeza de que sobreviverão e que continuarão a ter pai e mãe, mesmo morando em casas separadas. Mas, os primeiros meses não costumam ser fáceis mesmo para quem já se habituou a acompanhar situações  similares e nem  para quem até quisesse ver os pais pararem finalmente de brigar. Além das diferenças individuais e das condições que precedem o divórcio, em cada faixa etária,  as crianças recebam de modo diverso o rompimento familiar e  freqüentemente as conseqüências  aparecem no seu rendimento escolar.

De modo geral, se a separação do casal ocorre durante a gravidez ou no pós parto, é certo que o bebê  não terá noção do que ocorreu, mas poderá sofrer  com o resultado de uma  possível depressão da mãe, da qual ele não prescinde o convívio,  a atenção , os cuidados e a qualidade destes dependem do  estado de ânimo materno. Crianças de até três anos, que ainda não tem meios de compreender claramente a situação, tendem a passar por um período de lamentações, podem parecer regredir e se tornarem mais manhosos. Muitas, por se sentirem ameaçadas, passam a apresentar comportamentos agressivos, que antes nunca haviam demonstrado tanto em casa como na pré escola.

Após essa idade e até os seis anos, as crianças vão adquirindo maiores noções da realidade e já é possível conversar com elas, o que minimiza sua insegurança e medo de ser abandonado ou esquecido, apesar de que é comum voltarem a sofrer de enurese, terem pesadelos noturnos, ficarem com sentimentos de culpa e passarem a ser muito obedientes julgando que assim o pai/mãe que saiu de casa retornará .Podem ao contrário se  tornarem agressivos, rebeldes,passarem a tentar enganar a si próprios e aos demais dizendo por exemplo à professora e aos coleguinhas que os pais continuam juntos e felizes.

Dos seis aos nove anos, é freqüente que após um período de tristeza, passem a desenvolver fantasias de reconciliação, ao mesmo tempo que sofrem com sentimentos antagônicos de raiva  e saudades do pai que saiu de casa, ampliados pelos conflitos conjugais e as brigas pós separação, que acabam por provocar confusão entre o amor devido aos pais e o sentimento de lealdade àquele que mais perdeu com o rompimento. Em algumas famílias, as questões financeiras ou a falta da presença rotineira do pai ou da mãe, coloca as crianças na posição de cuidadores dos irmãos, o que é uma responsabilidade muito acima de suas reais possibilidades e que acarreta prejuízos na aprendizagem na maioria dos casos semelhantes.

Entre os nove e doze anos é comum ainda se assistir às tentativas infantis de reconciliar os pais logo após a separação, mas como já têm outros interesses pessoais, a raiva , a confusão de sentimentos e o senso de realidade começam gradativamente a dar lugar a  uma aceitação mais tranquila da nova situação.

Em geral, se a família se separa quando os filhos são adolescentes e estes foram educados dentro de normas claras, com respeito aos pais e com responsabilidade pessoal e familiar, tenderão, apesar de sentirem a mágoa da separação, a ter um comportamento cada vez mais imparcial, amadurecido, aceitando os fatos e colaborando no que for  possível com todos. Mas condutas anti-sociais também se revelam fortemente nessa faixa etária, quando  o processo de separação é por demais violento, quando o jovem não percebe ainda seu papel e deveres com a  família  e principalmente quando uma educação sem limites ou valores morais, começa  a dar mostras de seu resultado, independentemente de haver ou não  harmonia no lar.

O divórcio das famílias é uma experiência  que sempre deixa marcas profundas, pois no mínimo significa para o casal um projeto de vida que fracassou e do qual os filhos foram mais do que simples expectadores. Mas desse momento de fragilidade, com sabedoria, pode-se tirar lições importantes para o futuro e ainda ajudar os filhos a superarem essa fase, saindo dela mais  fortalecidos , equilibrados e preparados para enfrentar a própria vida.