Meu filho não gosta de estudar – preguiça ou dificuldade de aprendizagem?

porIrene Maluf

Meu filho não gosta de estudar – preguiça ou dificuldade de aprendizagem?

No final de um semestre escolar, quando analisam o aproveitamento acadêmico de seus filhos, algumas famílias se vêem frente de um problema inquietante. As razões são muitas e todas elas compreensíveis.

É natural que em algum momento dessa análise surja a preocupação com a adequação do desenvolvimento da criança, caso esta, mesmo que se dedique aos estudos com constância, não consiga se sair bem nas avaliações escolares. Mas aparece também e muitas vezes, uma clara apreensão devida tanto ao desinteresse do filho pela aprendizagem formal quanto à aparente dificuldade deste se adaptar às exigências da escola, a obedecer ao calendário para entrega de pesquisas e lições, a se preparar convenientemente para as provas e até de conservar o material em ordem. Esses e muitos outros exemplos são motivos para inquietações que acabam gerando um ambiente de desentendimento familiar e sofrimento para a criança.

É comum se ouvir dos pais, que até entenderiam as notas abaixo da média obtidas pela criança, se esta tivesse “algum problema”, como se apresentar qualquer um dos comportamentos acima já não constituísse uma razão válida para se procurar com a origem da questão, pois o resultado final é o mesmo: baixa auto-estima, dificuldade de socialização, prejuízos crescentes na aprendizagem e fracasso escolar. E tudo com um agravante que não se pode esquecer: o tempo apenas aumenta esses problemas, os acumula e solidifica , quando não termina por afastar totalmente o jovem da escola, de oportunidades futuras de trabalho, do crescimento pessoal , profissional e social.

É claro que existem crianças e mesmo adultos que sempre apresentaram maior interesse pelas questões do conhecimento e outros que preferem se dedicar a atividades artísticas, esportivas, ao comércio, etc. Mas frente às necessidades fundamentais de aprendizagem de nossa cultura, como o ler, o escrever e o contar, às exigências sociais básicas, não há como escapar da escolaridade fundamental, mesmo também por que é obrigatória por lei.

Assim, a criança não conseguir obter ao menos a média mínima para aprovação, já preocupa e muito ao final do primeiro semestre. Resta pensar nas causas e providenciar a solução e aí é que aparecem as questões mais conflitantes.

Se a criança não tem problema de aprendizagem, por que não estuda? Preguiça, má vontade, falta de responsabilidade, costumam ser as razões apontadas. Mas por detrás desse desinteresse aparente existe sim uma questão que precisa de cuidados: a falta de motivação pelo saber.

É normal as pessoas gostarem de ser elogiadas e apreciadas por sua inteligência e por serem bem sucedidas. E tenho constatado nestes trinta anos de profissão, que uma parte expressiva desses casos onde as crianças parecem indiferentes ao sucesso escolar, se deve a atitudes e exemplos que elas têm dentro de casa, da falta de informações sobre o que se espera dela e o quanto é importante para a família e para ela própria o bom aproveitamento escolar. Crianças não desenvolvem a auto-estima necessária para desejar sempre alcançar o sucesso, se não sabem o que devem fazer quando fracassam e são criticadas ou castigadas continuamente por isso.

Crianças desmotivadas apresentam comportamentos de frustração, ansiedade e desorganização, pois o insucesso constitui um processo paralisante: todos sabemos que após duas ou três experiências desastrosas, as pessoas saudáveis procuram se resguardar, evitando um novo contato desagradável e penoso com aquilo que gerou o fracasso.
Além de tudo que foi exposto , crianças e jovens com alguma dificuldade real de aprendizagem, muitas vezes, também são acusadas de “preguiçosas” e é frequente notarmos na avaliação psicopedagógica as conseqüências calamitosas que essa situação gera no seu desenvolvimento afetivo e intelectual.

Conversar frequentemente com o filho e com seus professores sobre seu desempenho escolar é um primeiro passo na tentativa de prevenir e até resolver esses impasses, de verificar causas e planejar soluções. Mas se a situação se agravar e persistir, um profissional especializado em psicopedagogia deve ser consultado, pelo bem estar e crescimento saudável da criança e do jovem.

Sobre o Autor

Irene Maluf editor

Pedagoga; Especialista em Educação Especial; Psicopedagogia e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia -ABPp (triênio 2005/07) e Editora da Revista Psicopedagogia (2003 a 2016); Atualmente é membro do Conselho Vitalício e da Diretoria Executiva da ABPp além de participar do Conselho Executivo da Revista Psicopedagogia.Organizadora, co-organizadora e co-autora em diversas publicações no Brasil e Exterior e autora de artigos na área da Psicopedagogia e Neuroaprendizagem em livros e revistas nacionais e internacionais.Palestrante em cursos e congressos no Brasil e no exterior. Sócia-Honorária da Associação Portuguesa de Psicopedagogos (2003). Trabalha em consultório de psicopedag ogia desde 1976, com experiência na área de Educação Regular e Especial, ênfase em Psicopedagogia e Neuroaprendizagem. Participa de grupos multidisciplinares .Perita Judicial . Diretora do Núcleo de Aperfeiçoamento Profissional em Psicopedagogia e Neuroaprendizagem Irene Maluf. É Coordenadora Pedagógica dos cursos de pós graduação Lato Sensu do Instituto Saber Cultura/FTP- Núcleos Sul e Sudeste Brasileiro- em Neuroaprendizagem, Transtornos do Aprender, Psicomotricidade, Cognição e Psicopedagogia, desde 2009 e do Mestrado em Ciencias da Educação da FTP/Unades.

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