Autor Irene Maluf

porIrene Maluf

Psicopedagogia Institucional

Segundo a Associação Brasileira de Psicopedagogia, “A Psicopedagogia é um campo de atuação em Educação e Saúde que se ocupa do processo de aprendizagem considerando o sujeito, a família, a escola, a sociedade e o contexto sócio histórico, utilizando procedimentos próprios, fundamentados em diferentes referenciais teóricos”.¹

Dessa definição se entende que essencialmente o objeto de estudo e de trabalho do psicopedagogo é a aprendizagem e como esta ocorre desde o princípio da vida humana e em todos os lugares e ambientes, sejam
ou não educativos, imediatamente percebemos a complexidade do desafio enfrentado por esse especialista, notadamente quando se trata inclusive de lidar com as Dificuldades e os Transtornos de Aprendizagem.

À parte os referenciais teóricos que dão sustentação à pratica profissional, que todos aprendem durante o curso de especialização, todo psicopedagogo, tal como um médico cirurgião, precisa ao longo de muitos anos, se submeter a supervisões periódicas com profissionais experientes da própria área ou áreas afins. Isso, sem esquecer do quanto é importante estar ao lado de uma equipe multiprofissional, já que boa parte das avaliações transcendem o campo de saber de um profissional e um bom diagnóstico é imprescindível para a intervenção exitosa seja na clínica ou na instituição.

“A intervenção Psicopedagógica é sempre da ordem do conhecimento,
relacionada com a aprendizagem, considerando o caráter indissociável entre os processos de aprendizagem e as suas dificuldades” e “na Educação e na Saúde, se dá em diferentes âmbitos da aprendizagem, considerando o caráter indissociável entre o institucional e o clínico”. ²

Na escola deve haver uma orientação preventiva que não permita que o fracasso escolar ocorra, que impeça a exclusão, o sofrimento do que aprende com dificuldade ou nem aprende, pois precisa de um outro recurso, de outra forma de ensino, outras estratégias. E tal orientação, convenhamos, se faz hoje ainda mais necessária do que nunca, devido ao contexto educacional inclusivo, no qual crianças e jovens com necessidades educativas especiais ganharam direito à matrícula em todos os bancos escolares e boa parte dos professores não são especialistas em educação especial.

Cabe ao Psicopedagogo organizar essa ação, de modo a respeitar os limites e as características de cada aluno, ao mesmo tempo em que lhe proporciona, e aos professores, recursos para uma aprendizagem exitosa.
Mas esse especialista atua em nível institucional, não apenas em escolas (públicas e privadas), mas em empresas, hospitais, ONGs e ambientes afins.

O psicopedagogo pode atuar tanto na Saúde como na Educação, já que o seu saber visa compreender e intervir nas variadas dimensões da aprendizagem humana. Assim, trabalha com a saúde mental da infância e adolescência em hospitais e clínicas, já que grande parte das queixas que levam crianças ao serviço de Saúde Mental dizem respeito a dificuldades de aprendizado. Da mesma forma, pode trabalhar com crianças hospitalizadas e
seu processo de aprendizagem em parceria com a equipe multidisciplinar da instituição hospitalar, tais como: psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e médicos.

Sendo uma especialização que ainda pode ser considerada recente no Brasil (35 anos) tem crescido muito e hoje também se ocupa com as questões de Adaptação Social e Escolar que implicam novos aprendizados, como no caso de mudanças de escolas, de método de ensino, etc.

Em países europeus aonde há um número expressivo de imigrantes essa modalidade vem sendo muito desenvolvida. Em perícias judiciais, abre-se um novo campo de trabalho além da clínica, para o psicopedagogo: com questões que implicam em avaliações sobre as condições de aprendizado que a criança vivencia em sua família e na instituição que frequenta, etc.

Também é frequente lidar com assuntos referentes a orientação familiar, em relação a maneira como os pais ensinam os comportamentos aos filhos e estabelecem padrões de relações entre os membros da família, lidam com a aprendizagem, o valor que dão ao conhecimento, etc.

A atividade clínica, não contrária, mas complementar, tem características remediativas. A criança com dificuldades ou transtornos no aprender, cuja resposta pedagógica se torna inviável sem auxílio profissional, é levada a um consultório aonde após um período de avaliação, por vezes multidisciplinar, passa a ser atendida na sua problemática por um especialista em aprendizagem: um psicopedagogo. Sua autoestima e potencialidades passam a ser cuidadas no âmbito da individualidade.

1, 2 Código de ética do psicopedagogo 2011, Associação Brasileira de
Psicopedagogia

porIrene Maluf

Para educar é preciso ensinar limites e regras

Para educar é preciso ensinar limites e regras

Mudaram as crianças ou mudou a forma como os adultos educam as crianças? Essa é uma questão levantada por Maria Irene Maluf ex-presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia (2005 a 2007). Ela orienta os pais a conversarem diariamente com os seus filhos com o objetivo de analisar o que está sendo transmitido pela publicidade voltada para elas, se se trata de um conteúdo prejudicial ou não. E o passo seguinte, diz a especialista, é impor regras e limites, principalmente sobre o que elas exigem estimuladas pela publicidade. Em seu depoimento para a campanha Somos Todos Responsáveis, Irene Maluf diz que os filhos dessa geração são os mesmos de outras, o que mudou foi a forma de os pais imporem limites. Segundo ela, muitos pais chegam até ela dizendo que as crianças já vivem em uma sociedade muito cheia de regras, com horário para ir e voltar da escola, cursos extras, e por isso não merecem mais moderação. Ela desaconselha essa postura e alerta para que um “não” seja mantido até o final. Se voltar atrás, ela diz, a criança sempre vai saber que o seu “não” é momentâneo.

 

Fonte: http://www.somostodosresponsaveis.com.br

porIrene Maluf

Proteção exagerada faz mal

Por incrível que pareça, não são os elogios exagerados, os mimos, a superproteção, a hipervalorizarão que ajudam a formar a autoestima: pelo contrário, esses comportamentos paternos prejudicam, e muito, o seu desenvolvimento.

Nos primeiros meses de vida, formam- se vínculos afetivos e de segurança entre pais e filhos, na medida em que as crianças se sentem amadas, seguras e atendidas nas suas necessidades primordiais. Quando vem a famosa fase dos “não”, e a criança se opõe a praticamente tudo, tentando se afirmar, então são os limites impostos pelos adultos, juntamente com o respeito aos seus limites e capacidade física, mental e psicológica, que dão à criança a continuidade do sentimento de segurança.

Depois, na pré-escola, quando convive com o mundo fora de casa e começa a enfrentar pequenos entraves e a vivenciar as inevitáveis diferenças e disputas, são os pais que a ajudam a compreender essas realidades, quando realçam de modo objetivo e carinhoso suas qualidades, talentos, incentivando-a a vencer obstáculos. Assim tomam ciência de seu real valor, sem deixar de apreciar a capacidade do outro, sem pensar que tem poderes ou direitos maiores ou que não precisa lutar para se sobressair por seus próprios méritos.

Em qualquer idade, vale a força do modelo que os pais passam aos filhos no dia a dia: a acuidade da percepção infantil supera em muito a importância que os adultos atribuem a ela e o valor que esse ser, ainda pequenino, sente possuir no meio de sua família, e a imagem que pais e irmãos demonstram ter sobre ela não passa de forma alguma despercebida, nem pela criança mais distraída, mais imatura.

Da relação construída ao longo dos primeiros 6 ou 7 anos, a criança, com os que são caros a ela, desenvolve a sua autoimagem: comentários depreciativos constantes formam uma autoimagem negativa, mas o excesso de falsos elogios, a proteção exagerada criam igualmente essa imagem, pois a criança logo se percebe mais fraca que seus iguais nos naturais embates diários.

Desenvolver a autoestima, ou seja, saber de seu valor enquanto pessoa, ter uma autoimagem positiva, confiança em si mesmo, dentro dos limites do respeito ao outro, é muito diferente de achar que é boa em tudo, é mais esperta e inteligente do que os amigos, que pode fazer o que quiser sem sofrer penalidades, que nada deve temer, etc.

Conhecer seus pontos fortes e fracos, seu valor pessoal, sentir-se amada e protegida pelos pais faz com que a criança cresça entendendo que tem capacidades e limites e que pode ser muito bem-sucedida exatamente do jeito que é, desde que tenha confiança em si e se esforce de modo determinado.

Podemos dizer que a autoestima tem quatro bases fundamentais:

1) O autoconhecimento, que se adquire graças às experiências vividas e às suas relações no meio social: a criança descobre suas aptidões naturais, interesses e também seus limites pessoais. A família, ao valorizar, respeitar suas características, ao ensiná-la a suportar frustrações, enfrentar dificuldades, ser persistente, estará ajudando essa criança a se conhecer e amadurecer. Crianças superprotegidas têm muita dificuldade de se autoconhecerem e assim não desenvolvem a autoestima.

2) A autoconfiança só se adquire em um lar com regras, limites e valores: esse é outro pré-requisito para a autoestima, que tanto a superproteção quanto a negligência familiar impedem de se desenvolver. Crianças precisam crescer sentindo que há por perto quem cuide delas, as ame, mas também as repreenda quando necessário. Precisam de regras, normas, modelos, conhecer seus deveres e direitos. Isso permite que cresçam com a noção de que são realmente capazes.

3) Sentir-se parte de um grupo: o primeiro grupo é a família, e sentir-se acolhido e amado nesse meio é fundamental para entender e superar uma série de situações da vida, pois uma criança rejeitada terá dificuldades de se socializar convenientemente. Crianças bem socializadas compartilham, são generosas, respeitosas, resolvem seus problemas de modo sensato com seu grupo. A rejeição tem um forte impacto na autoestima.

4) Sentimento de competência: para ser competente é preciso ter alguma experiência bem-sucedida, não bastam elogios. Portanto, é importante incentivar as crianças a produzirem, a fazerem coisas que possam gerar sucesso, conquistas, para desenvolverem esse sentimento.

Crianças e jovens com problemas de autoestima em geral têm dificuldades para interagir com seus pares, preferindo ficar junto dos pais. Dificilmente fazem escolhas próprias, optando por seguir a vontade do grupo, pois também não se fazem respeitar, de modo que evitam falar em público, detestam novidades, têm dificuldade para lidar com mudanças. Se depreciam, pois não reconhecem suas qualidades, seus pontos fortes e fracos e, por isso, têm problemas para se tornar adultos autônomos. São, em geral, aqueles adolescentes birrentos, agressivos, pouco motivados, que desistem rapidamente frente ao primeiro problema e não tomam para si desafios comuns da idade, pois se acham incapazes.

Muitas vezes, a ajuda de um profissional é indispensável. Procurar ouvir e observar as crianças desde cedo podem nos ensinar muito a respeito do que precisam e de como as devemos educar.

 

porIrene Maluf

Resiliência: um tema para repensarmos a educação de hoje

Todos nós, ao longo da vida passamos por muitos momentos alegres e numerosas situações difíceis, onde nossa capacidade de tolerância à frustração foi duramente posta à prova. O que nem sempre lembramos é que foram essas ocasiões de perdas, de dor, juntamente com a forma como as superamos, que  nos moldaram e nos tornaram quem somos hoje.

Existe uma palavra, emprestada da engenharia e da física, que explica muito bem porque e como algumas pessoas superam melhor do que outras, os revezes do dia a dia e conseguem tirar das situações mais difíceis, forças e capacidade de se reinventarem: é a resiliência.

Essa palavra tem sua origem no latim, Resílio, que significa retornar a um estado anterior. Na engenharia e na física ela é definida como a capacidade de um corpo físico voltar ao seu estado normal, depois de ter sofrido uma pressão que o deformou e nas ciências humanas designa a capacidade de um indivíduo, (re) construir-se frente às adversidades sofridas, mesmo num ambiente desfavorável.

Os estudos sobre a resiliência ainda não conseguiram concluir nada de muito claro sobre a origem dessa competência, ou seja se há alguma condição inata que favoreça o seu aparecimento ou se seu desenvolvimento se deva aos tipos de situações experimentadas pela pessoa, ou ainda se há necessidade de uma combinação articulada entre esses fatores.

Entretanto, hoje, vários estudiosos estão aprofundando suas pesquisas a partir de uma constatação inegável: a educação oferecida às crianças tem imensa influência no desenvolvimento de certas qualidades que a maioria das pessoas possui, mas que precisam ser corretamente estimuladas e vivenciadas no dia a dia. É o modelo, o exemplo e os princípios educacionais que fazem a diferença na hora de precisar reagir frente a uma situação de perda, frustração e dor.

Não se trata de nada que todos os pais não saibam ou nunca tenham ouvido falar, mas são ações importantes que infelizmente passam de modo as vezes pouco valorizado no dia a dia :falamos de disciplina, regras e conseqüências. Falamos de uma educação de valores, de respeito, onde se fazem constantes, freqüentes reflexões sobre atitudes, sobre valorização do potencial e autoconhecimento, onde são múltiplas as ações que estimulam a auto estima, a segurança pessoal e a empatia pelos demais.

Crianças educadas dentro desse perfil, alcançam com mais facilidade a autonomia, a independência responsável, e a capacidade de encontrar novas alternativas para resolução de situações problema e sentem-se no controle da forma como devem reagir frente às frustrações e sair renovado.

Não é demais recordar também, que não sendo centrados apenas nos seus interesses pessoais, os jovens criam recursos internos que lhes permitem descobrirem outras fontes de satisfação as quais não dão espaço que caminhos aparentemente compensatórios, como drogas e álcool, os dominem. Reconhecem por meio da aprendizagem dos modelos familiares, as possibilidades de enfrentamento das frustrações através dos vínculos afetivos estabelecidos no dia a dia, na aceitação das diferenças individuais, no reconhecimento familiar de suas qualidades, na importante sensação de pertencer a um grupo.

Educadas para serem fortes mas sensíveis, as crianças e jovens descobrem e reinventam objetivos de vida após as perdas e aprendem a construir estratégias para alcançar essas metas, encontrando em si próprios, motivação para continuar o seu crescimento saudável. E mais importante ainda, é que ao invés de saírem enfraquecidos após enfrentarem grandes problemas, elas sentem-se mais competentes para encarar os novos desafios inerentes à vida.

porIrene Maluf

Meu filho não gosta de estudar – preguiça ou dificuldade de aprendizagem?

No final de um semestre escolar, quando analisam o aproveitamento acadêmico de seus filhos, algumas famílias se vêem frente de um problema inquietante. As razões são muitas e todas elas compreensíveis.

É natural que em algum momento dessa análise surja a preocupação com a adequação do desenvolvimento da criança, caso esta, mesmo que se dedique aos estudos com constância, não consiga se sair bem nas avaliações escolares. Mas aparece também e muitas vezes, uma clara apreensão devida tanto ao desinteresse do filho pela aprendizagem formal quanto à aparente dificuldade deste se adaptar às exigências da escola, a obedecer ao calendário para entrega de pesquisas e lições, a se preparar convenientemente para as provas e até de conservar o material em ordem. Esses e muitos outros exemplos são motivos para inquietações que acabam gerando um ambiente de desentendimento familiar e sofrimento para a criança.

É comum se ouvir dos pais, que até entenderiam as notas abaixo da média obtidas pela criança, se esta tivesse “algum problema”, como se apresentar qualquer um dos comportamentos acima já não constituísse uma razão válida para se procurar com a origem da questão, pois o resultado final é o mesmo: baixa auto-estima, dificuldade de socialização, prejuízos crescentes na aprendizagem e fracasso escolar. E tudo com um agravante que não se pode esquecer: o tempo apenas aumenta esses problemas, os acumula e solidifica , quando não termina por afastar totalmente o jovem da escola, de oportunidades futuras de trabalho, do crescimento pessoal , profissional e social.

É claro que existem crianças e mesmo adultos que sempre apresentaram maior interesse pelas questões do conhecimento e outros que preferem se dedicar a atividades artísticas, esportivas, ao comércio, etc. Mas frente às necessidades fundamentais de aprendizagem de nossa cultura, como o ler, o escrever e o contar, às exigências sociais básicas, não há como escapar da escolaridade fundamental, mesmo também por que é obrigatória por lei.

Assim, a criança não conseguir obter ao menos a média mínima para aprovação, já preocupa e muito ao final do primeiro semestre. Resta pensar nas causas e providenciar a solução e aí é que aparecem as questões mais conflitantes.

Se a criança não tem problema de aprendizagem, por que não estuda? Preguiça, má vontade, falta de responsabilidade, costumam ser as razões apontadas. Mas por detrás desse desinteresse aparente existe sim uma questão que precisa de cuidados: a falta de motivação pelo saber.

É normal as pessoas gostarem de ser elogiadas e apreciadas por sua inteligência e por serem bem sucedidas. E tenho constatado nestes trinta anos de profissão, que uma parte expressiva desses casos onde as crianças parecem indiferentes ao sucesso escolar, se deve a atitudes e exemplos que elas têm dentro de casa, da falta de informações sobre o que se espera dela e o quanto é importante para a família e para ela própria o bom aproveitamento escolar. Crianças não desenvolvem a auto-estima necessária para desejar sempre alcançar o sucesso, se não sabem o que devem fazer quando fracassam e são criticadas ou castigadas continuamente por isso.

Crianças desmotivadas apresentam comportamentos de frustração, ansiedade e desorganização, pois o insucesso constitui um processo paralisante: todos sabemos que após duas ou três experiências desastrosas, as pessoas saudáveis procuram se resguardar, evitando um novo contato desagradável e penoso com aquilo que gerou o fracasso.
Além de tudo que foi exposto , crianças e jovens com alguma dificuldade real de aprendizagem, muitas vezes, também são acusadas de “preguiçosas” e é frequente notarmos na avaliação psicopedagógica as conseqüências calamitosas que essa situação gera no seu desenvolvimento afetivo e intelectual.

Conversar frequentemente com o filho e com seus professores sobre seu desempenho escolar é um primeiro passo na tentativa de prevenir e até resolver esses impasses, de verificar causas e planejar soluções. Mas se a situação se agravar e persistir, um profissional especializado em psicopedagogia deve ser consultado, pelo bem estar e crescimento saudável da criança e do jovem.